Marcos Vinícius estava
no penúltimo período da faculdade de jornalismo. Este era o momento
em que se entrava de cabeça na profissão propriamente dito. Época
também, para ter o assunto sobre a monografia de conclusão do
curso. Quer dizer, ele já deveria ter anotações o bastante para
isso.
Na aula anterior, ele
ficou sabendo que iria participar da construção da revista mensal e
teria de escolher uma seção a qual gostaria de escrever uma
matéria. Só que ele pegou um engarrafamento do estágio para a
universidade e se atrasou.
– Chegou cedo para
amanhã! – disse o professor sarcasticamente, olhando-o dos pés a
cabeça. – muitos já escolheram as reportagens que irão fazer...
Não sobrou muitas... Melhor dizendo... Só duas: Moda feminina e
saúde.
Marcos lamentou muito o
atraso e acabou perdendo as duas áreas que mais gostava no
jornalismo: esportes e política. Para não ficar pior ainda a
situação dele, tratou logo de pegar a parte que falava da saúde.
– Senhores e senhoras
de imprensa, vocês tem até quarta-feira a tarde para entregar suas
matérias na redação... Como hoje é segunda-feira e já é noite fechada, vocês
tem um dia e meio... Não atrasem em entregar a bendita, pois a
“boneca” da revista deverá estar pronta quinta-feira, para que
no sábado esteja em toda universidade... Mãos a obra! Detalhe: Isso
daí, faz parte da prova!!
Foi uma correira
desenfreada de alunos porta afora. Mais da metade não sabia por onde
começar e isso incluía Marcos Vinícius.
– Preciso de uma pauta!
Preciso de uma pauta! – disse uma das meninas, que tinha pego o
assunto das cidades.
– Você não é a única
que precisa de um assunto. – respondeu Marcos, mais perdido do que
nunca. – Se eu tivesse pego esporte...
Marcos chegou em casa e
encontrou o pai assistindo uma partida de futebol na tevê.
– O que foi filho? Que
cara é esta? Me parece desesperado!
– Eu estou
desesperado... Preciso escrever uma reportagem para revista da
universidade e não sei onde começar.
– Qual é o assunto,
que você pegou?
– Saúde! Preciso escrever algo que seja... Diferente!
– Por que você não
entrevista o seu bisavô Fernando? Mais saúde do que aquele velho de
96 anos não existe!
– Obrigadão pai! –
disse Marcos, se jogando nos braços dele.
– De nada meu filho...
É gol, é gol, é gol! Goooooooooooooooooool!!!! – gritou ele, se
levantando rapidamente, deixando Marcos cair no chão de bunda e
correndo feito um doido pela sala!
– Esse meu pai é uma
figura! Não é que foi gol mesmo! – disse ele assim que olhou a
tela da tevê.
Marcos preparou tudo para
entrevistar o avô: o gravador e a câmera digital, um bloco e uma
caneta. No dia seguinte, antes do sol sair, ele tomou o primeiro
ônibus e foi a casa do bisavô, que ficava do outro lado da cidade.
Quando chegou lá, pegou o idoso saindo de casa:
– Ué? O que você está
fazendo aqui Marcos?
– Preciso do senhor
vovô!
– De mim? Se não for
para correr atrás de alguém ou carregar peso, pode contar comigo.
Marcos explicou tudo
detalhadamente e o velho Fernando aceitou de imediato.
– Então ligue o seu
gravador e me acompanhe. Estou indo a padaria comprar alguns pães.
O rapaz ligou o gravador
e fez a primeira pergunta:
– Como o senhor
conseguiu chegar aos 96 anos senhor Fernando?
– Me acompanhe e você
verá... Preste bem a atenção.
Perto de um cruzamento, o
sinal estava prestes a fechar para os pedestres e Marcos disse:
– Vamos, senhor
Fernando, ainda dá tempo.
– Prefiro esperar aqui.
– disse ele, vendo muitas pessoas apressadas aproveitando o sinal,
que piscava.
Quando o sinal abriu
novamente para os pedestres, senhor Fernando atravessou calmamente.
Chegando na padaria, a fila não estava grande, mas o padeiro o
cumprimentou com alegria e perguntou:
– Vai levar os pães
senhor Francisco?
– A que horas sai a
próxima fornada?
– Daqui a cinco
minutos! – disse este olhando para o relógio na parede.
– Vou esperar! Pode
atender os outros. Aproveita e me dê 300 gramas de presunto fatiado
fininho, sem capa de gordura.
Saindo da padaria o
senhor Francisco passou na banca de jornais.
– Olá João! Me dê o
jornal e o dinheiro da aposta.
– Dinheiro da aposta? –
disse Marcos curioso.
– Eu apostei com o
João, que o time dele ia perder ontem.
– E como o senhor sabia
que iria perder?
– Eu disse, que se o
time dele jogasse na retranca, iria perder de dois a zero.
– E foi o que
aconteceu! Aqui está o seu jornal e a aposta paga.
– Obrigado!
Marco passou o dia
inteiro com o bisavô e não viu nada demais na reportagem a qual
estava fazendo e desanimou-se.
– O que foi meu neto,
não conseguiu o que queria?
– Puxa, eu queria saber
como o senhor conseguiu chegar até os 96 anos e não vi nada.
– Você atentou aos
detalhes?
– Que detalhes?
– A espera no sinal: A
paciência; A espera na padaria: A escolha; A aposta ganha na banca
de jornais: O poder de observação através da experiência da vida.
Marcos entregou a matéria
na quarta-feira, com as fotos do bisavô nos locais que visitou e
escreveu o seguinte título: A saúde se esconde nos pequenos
detalhes da vida.
Conclusão: a matéria
escrita foi elogiada por todos, também foi capa do exemplar daquele
mês na universidade e Marcos tirou a maior nota de toda a turma.



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