domingo, 19 de agosto de 2012

A longevidade está nos pequenos detalhes


Marcos Vinícius estava no penúltimo período da faculdade de jornalismo. Este era o momento em que se entrava de cabeça na profissão propriamente dito. Época também, para ter o assunto sobre a monografia de conclusão do curso. Quer dizer, ele já deveria ter anotações o bastante para isso.

Na aula anterior, ele ficou sabendo que iria participar da construção da revista mensal e teria de escolher uma seção a qual gostaria de escrever uma matéria. Só que ele pegou um engarrafamento do estágio para a universidade e se atrasou.
Chegou cedo para amanhã! – disse o professor sarcasticamente, olhando-o dos pés a cabeça. – muitos já escolheram as reportagens que irão fazer... Não sobrou muitas... Melhor dizendo... Só duas: Moda feminina e saúde.
Marcos lamentou muito o atraso e acabou perdendo as duas áreas que mais gostava no jornalismo: esportes e política. Para não ficar pior ainda a situação dele, tratou logo de pegar a parte que falava da saúde.
Senhores e senhoras de imprensa, vocês tem até quarta-feira a tarde para entregar suas matérias na redação... Como hoje é segunda-feira e já é noite fechada, vocês tem um dia e meio... Não atrasem em entregar a bendita, pois a “boneca” da revista deverá estar pronta quinta-feira, para que no sábado esteja em toda universidade... Mãos a obra! Detalhe: Isso daí, faz parte da prova!!
Foi uma correira desenfreada de alunos porta afora. Mais da metade não sabia por onde começar e isso incluía Marcos Vinícius.
Preciso de uma pauta! Preciso de uma pauta! – disse uma das meninas, que tinha pego o assunto das cidades.
Você não é a única que precisa de um assunto. – respondeu Marcos, mais perdido do que nunca. – Se eu tivesse pego esporte...
Marcos chegou em casa e encontrou o pai assistindo uma partida de futebol na tevê.
O que foi filho? Que cara é esta? Me parece desesperado!
Eu estou desesperado... Preciso escrever uma reportagem para revista da universidade e não sei onde começar.
Qual é o assunto, que você pegou?
Saúde! Preciso escrever algo que seja... Diferente!
Por que você não entrevista o seu bisavô Fernando? Mais saúde do que aquele velho de 96 anos não existe!
Obrigadão pai! – disse Marcos, se jogando nos braços dele.
De nada meu filho... É gol, é gol, é gol! Goooooooooooooooooool!!!! – gritou ele, se levantando rapidamente, deixando Marcos cair no chão de bunda e correndo feito um doido pela sala!
Esse meu pai é uma figura! Não é que foi gol mesmo! – disse ele assim que olhou a tela da tevê.



Marcos preparou tudo para entrevistar o avô: o gravador e a câmera digital, um bloco e uma caneta. No dia seguinte, antes do sol sair, ele tomou o primeiro ônibus e foi a casa do bisavô, que ficava do outro lado da cidade. Quando chegou lá, pegou o idoso saindo de casa:
Ué? O que você está fazendo aqui Marcos?
Preciso do senhor vovô!
De mim? Se não for para correr atrás de alguém ou carregar peso, pode contar comigo.
Marcos explicou tudo detalhadamente e o velho Fernando aceitou de imediato.
Então ligue o seu gravador e me acompanhe. Estou indo a padaria comprar alguns pães.
O rapaz ligou o gravador e fez a primeira pergunta:
Como o senhor conseguiu chegar aos 96 anos senhor Fernando?
Me acompanhe e você verá... Preste bem a atenção.
Perto de um cruzamento, o sinal estava prestes a fechar para os pedestres e Marcos disse:
Vamos, senhor Fernando, ainda dá tempo.
Prefiro esperar aqui. – disse ele, vendo muitas pessoas apressadas aproveitando o sinal, que piscava.
Quando o sinal abriu novamente para os pedestres, senhor Fernando atravessou calmamente. Chegando na padaria, a fila não estava grande, mas o padeiro o cumprimentou com alegria e perguntou:
Vai levar os pães senhor Francisco?
A que horas sai a próxima fornada?
Daqui a cinco minutos! – disse este olhando para o relógio na parede.
Vou esperar! Pode atender os outros. Aproveita e me dê 300 gramas de presunto fatiado fininho, sem capa de gordura.
Saindo da padaria o senhor Francisco passou na banca de jornais.
Olá João! Me dê o jornal e o dinheiro da aposta.
Dinheiro da aposta? – disse Marcos curioso.
Eu apostei com o João, que o time dele ia perder ontem.
E como o senhor sabia que iria perder?
Eu disse, que se o time dele jogasse na retranca, iria perder de dois a zero.
E foi o que aconteceu! Aqui está o seu jornal e a aposta paga.
Obrigado!
Marco passou o dia inteiro com o bisavô e não viu nada demais na reportagem a qual estava fazendo e desanimou-se.
O que foi meu neto, não conseguiu o que queria?
Puxa, eu queria saber como o senhor conseguiu chegar até os 96 anos e não vi nada.
Você atentou aos detalhes?
Que detalhes?
A espera no sinal: A paciência; A espera na padaria: A escolha; A aposta ganha na banca de jornais: O poder de observação através da experiência da vida.
Marcos entregou a matéria na quarta-feira, com as fotos do bisavô nos locais que visitou e escreveu o seguinte título: A saúde se esconde nos pequenos detalhes da vida.
Conclusão: a matéria escrita foi elogiada por todos, também foi capa do exemplar daquele mês na universidade e Marcos tirou a maior nota de toda a turma.


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